sexta-feira, 19 de junho de 2020

Menino condenado a cadeira elétrica, é inocentado 70 anos depois


George Stinney Jr é declarado inocente 70 anos após sua execução

O episódio aconteceu durante a "Era Jim Crow",  história completa que mostra perfeitamente como pessoas negras foram (são) atropeladas pelo sistema de justiça. O garoto negro foi considerado inocente, 70 anos após a execução, aos 14 anos de idade, na cadeira elétrica na Carolina do Sul

Stinney Jr tornou-se a pessoa mais jovem a ser executada no século 20, nos EUA, quando foi enviado para a cadeira elétrica em 1944, após ser condenado por uma sentença que foi anulada, mais de 70 anos depois da sua morte.

No dia de sua execução, em 16 de junho de 1944, George Stinney, que pesava apenas 43 quilos, era tão pequeno que o carrasco teve de colocar um catálogo telefônico debaixo de seus glúteos para que não escorregasse na cadeira elétrica.


A juí za Carmen Tevis Mullen disse que a velocidade com a qual o Estado condenou o menino foi chocante e extremamente injusta e que o seu caso foi uma “grande injustiça”, decidindo pela inocência de Stinney Jr.

O garoto negro de 14 anos de idade foi condenado à morte pelo assassinato de duas meninas brancas em uma cidade segregada na Carolina do Sul, em um julgamento que durou menos de três horas e, segundo informações, sem nenhuma evidência e quaisquer depoimentos de testemunhas.

Ele foi interrogado em uma pequena sala, sozinho — sem os pais e sem advogado (o caso histórico de Gideon v. Wainwright, que garantiu o direito a um advogado para aqueles que não podem pagar, só aconteceu em 1963). A polícia alegou que o garoto confessou ter matado Betty June Binnicker, 11, e Mary Emma Thames, 8, admitindo que ele queria ter relações sexuais com Betty.

Após um julgamento de duas horas e uma deliberação do júri de 10 minutos, Stinney foi condenado por assassinato em 24 de abril e sentenciado à morte por eletrocussão. Naquela época, 14 anos era a idade da responsabilidade criminal. Seu advogado, uma figura política local, optou por não apelar.

O julgamento inicial de Stinney, a evidência — ou a falta dela — e a velocidade com que ele foi condenado pareciam ilustrar como um jovem garoto negro foi atropelado por um sistema de justiça totalmente branco. Durante o julgamento de um dia, a defesa chamou poucas ou nenhuma testemunha. Não havia registro escrito de uma confissão. Já na época que a matéria foi publicada, a maioria das pessoas que poderiam testemunhar já estavam mortas e a maioria das evidências já não existia há muito tempo.


Novos fatos no caso levaram a juíza Carmen Mullen a abandonar a condenação em 2013 — 70 anos após a execução de Stinney.
“Não consigo pensar em injustiça maior do que a violação dos direitos constitucionais de uma pessoa, como foi comprovado neste caso”, escreveu Mullen.

O caso assombra a cidade desde que aconteceu, mas ganhou nova atenção quando o historiador George Frierson, um membro do conselho escolar local criado na cidade natal de Stinney, começou a estudá-lo há alguns anos. Desde então, um ex-colega de cela de Stinney divulgou um comunicado afirmando que o garoto negava as acusações. “Eu não fiz, não fiz”, Stinney disse a Wilford Hunter.


 “Ele disse: ‘Por que eles me matariam por algo que eu não fiz?’”.
Em 2009, um advogado pretendia arquivar as declarações dos familiares de Stinney, mas esperou porque ouviu um homem no Tennessee, que não era parente de George, dizendo que teria um álibi para o menino. O homem nunca prosseguiu com o depoimento. Supostamente, aquilo teria adiado o julgamento, mas não o interrompeu.

“A Carolina do Sul ainda reconhece George Stinney como um assassino”, disse o advogado Matt Burgess à CNN, no início de 2014. “Nós sentimos que algo precisava ser feito sobre isso”.

Novos detalhes começaram a surgir. A família de Stinney alegou que a confissão do menino foi coagida e que ele tinha um álibi que nunca foi ouvido. Esse álibi era sua irmã, Amie Ruffner, agora com 77 anos. Ela disse que estava com ele no suposto momento do crime, olhando a vaca que a família tinha pastando próximo aos trilhos de trem perto de sua casa, quando as duas meninas andavam de bicicleta e passaram por eles.

“Elas perguntaram: ‘Vocês sabem dizer onde nós dizer onde encontraríamos algumas flores de maracujá?’”, Ruffner contou para a emissora WLTX-TV. “Dissemos que não e eles continuaram seu passeio”.


“[A polícia] estava procurando alguém para culpar, então eles usaram meu irmão como bode expiatório”, disse sua irmã, Amie Ruffner, a uma emissora de TV no início de 2014.